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Mercado bom para cachorro

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Serviços e produtos para animais de estimação movimentam a economia brasileira

Toda terça e quinta-feiras a rotina é sagrada. É dia de levar Nina para nadar. Mas não se trata de natação tradicional. Essa é para cachorros. “É um canil só de golden retriever. O rapaz vem buscá-la de manhã e a devolve no período da tarde. No sábado ela também nada um pouco. Adora água”, conta, empolgada, a farmacêutica Renata Berardoco, 37 anos, dona da cachorra. Além da golden de três anos, Renata divide o apartamento no Morumbi (SP) com o marido, a filha de cinco anos e o maltês Zip, de sete anos. “O Zip é mais caseiro, é totalmente ligado a mim. Enquanto a Nina desce para passear quatro vezes por dia, ele desce duas”, diz. A farmacêutica explica que não é só a casa que divide com os bichos de estimação. A cama também é um lugar bastante freqüentado. “Dormimos numa cama superking size para caber todo mundo. A Nina gosta de ficar na cabeceira. O Zip acorda para fazer xixi toda noite e fica chorando para o colocarmos de volta na cama porque ele não alcança”, fala. Os cães estão inseridos até nos programas da família fora de São Paulo. “Fomos para um hotel em Campos do Jordão que aceita cachorros e eles ficaram com a gente no quarto”, lembra Renata.Outro item em que os animais estão incluídos é no orçamento familiar. Entre os gastos com ração, antipulgas, canil, banho e tosa a farmacêutica gasta, em média, 700 reais por mês. Isso sem contar as eventuais despesas com remédios, veterinário, vacinas e os mimos que costuma trazer de suas viagens ao exterior. “Chego a gastar 200 dólares em ossinhos importados”, revela.

Os números do mercado pet mostram que Renata não é a única dona a se preocupar com a saúde e o bemestar dos animais de estimação. Nos Estados Unidos, primeiro mercado consumidor no ranking mundial, a previsão é que o setor movimente 52 bilhões de dólares até 2009, segundo dados da American Pet Products Manufatures Association. São roupas, sapatos, chapinha, coleiras com pedras preciosas, snacks (salgadinhos e biscoitos) dos mais variados sabores, rações especiais, leites, mamadeiras, exames e tratamentos, brinquedos e uma infinidade de coisas que se assemelham às necessidades dos próprios donos.

No Brasil, terceiro lugar no ranking do “pet business”, o faturamento do mercado em 2007 alcançou a cifra de US$ 4,1 bilhões. De acordo com a Anfal Pet – Associação Nacional de Fabricantes para Pequenos Animais, o setor de alimentos (pet food) é responsável por 75% desse valor. Medicamentos e a área de serviços participam com 7% e 13%. Já os acessórios ocupam 5% desse segmento.

Um estudo, realizado pelo consultor Sérgio Diniz, do Sebrae/SP, aponta que em 2005 havia mais de oito mil lojas em todo o País no comércio de acessórios, medicamentos e serviços (banho, tosa e atendimento clínico). Segundo estimativa do Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), cerca de 59% dos domicílios têm algum animal de estimação, sendo que em 44% deles há pelo menos um cachorro (média de 1,3 por domicílio) e em 16% pelo menos um gato (média de 1,5 por domicílio). Conforme o consultor, nas classes A e B, 63% das casas têm animais. Já na classe C, 64% dos lares têm algum animal. Nas classes D e E esse porcentual cai para 55%. O consumo de produtos e serviços é significativo no Brasil. A primeira região da lista é a Sudeste, que responde por 43% do volume. Em segundo lugar vem o Sul, com 15%. O Centro-Oeste e Norte estão empatados, responsáveis por 7% cada uma do consumo brasileiro.

De olho nesse filão, as empresas de alimentos lançam novos produtos para atender ao gosto exigente dos clientes. “Em 2007, faturamos mais de 15% acima de 2006”, afirma John Ament, diretor de marketing da Mars Brasil, fabricante das marcas Pedigree e Whiskas. Segundo ele, os alimentos secos são os mais consumidos no Brasil. Outro tipo de alimento com grande apelo entre os donos de cães e gatos é o snack. Utilizado como recompensa na educação dos bichinhos, os salgadinhos e biscoitos apresentam-se em várias versões e sabores. “Os snacks têm tido um crescimento maior que os outros produtos ao longo dos últimos anos, principalmente porque a variedade de oferta tem aumentado muito. O crescimento dessa categoria deve continuar, pois a relação entre os donos e seus animais de estimação está cada vez mais próxima e intensa, e os snacks têm um papel importante para fortalecer essa relação”, aponta John.

Beleza é fundamental

Atentos ao crescimento dos negócios no campo de serviços, alguns profissionais estão migrando de suas áreas originais para empreendimentos no setor pet. É o caso da engenheira Rosana Sue, que sempre trabalhou em grandes empresas e agora investe em cuidados com a beleza dos bichos de companhia. Dona da Pêlo Modelo, os serviços oferecidos vão além do banho e tosa comuns. Hidratação e cauterização dos pêlos, banho tonalizante para reforçar a cor original da pelagem e tingimento são alguns dos tratamentos possíveis para os pets. “Alguns donos adoram fazer tingimento em rosa e azul só para ficar diferente. Mas existem algumas tintas importadas nas cores marrom e preto que podem ser usadas para esconder os brancos do pêlo e remoçar” explica Rosana.

Outro recurso de beleza similar ao utilizado em humanos é a pintura das unhas. São esmaltes especialmente fabricados para cachorros. “Têm uma tonalidade furta-cor, que em unha preta fica perolado. É bem discreto e bonito”, ensina Rosana. Os gatos não necessitam do procedimento, pois ficam com as unhas escondidas. No entanto, podem se valer de outras mordomias também destinadas a humanos e cachorros, o banho de ofurô. “Usamos sais de banho relaxantes e fazemos massagem. Recentemente veio uma gatinha muito ativa aqui. Ela chegou a fechar os olhos na banheira”, conta. Depois do banho se usa perfume em spray para os cães, e musse perfumado para os sensíveis gatos.

Escola de banho e tosa

Além de oferecer serviços de banho e tosa e vender produtos de higiene e beleza, o centro conta com um núcleo profissionalizante em estética animal. “A procura pelos cursos de banhista e esteticista está aumentando. São ; veterinários, proprietários de pet shop, e até outros profissionais”, conta Rosana. O curso de esteticista ensina a analisar as características dos animais, ressaltando as qualidades e disfarçando os defeitos na hora da tosa. Também há instruções sobre hidratação e tingimento. São necessárias 20 aulas e um investimento de 1.200 reais para o aperfeiçoamento. Já no curso de banhista o profissional aprende sobre as diferentes raças de gatos e cachorros, técnicas de banho, utilização dos equipamentos, pelagens e outros temas. O investimento para se tornar banhista gira em torno de 600 reais. Os bichos utilizados no aprendizado são cedidos por canil ou gatil da região e pelos proprietários de cães e gatos da vizinhança. “Como os alunos estão aprendendo, pode haver falhas na tosa e demora na entrega, mas os donos não reclamam”, fala. Segundo a empresária, o empréstimo do animal compensa. O desconto dado na escola é de 50% em relação ao preço cobrado no centro de estética. “O banhista é um dos profissionais mais importantes do pet. É ele quem dá ritmo ao trabalho, é ele quem economiza produtos e diminui custos para o proprietário. É interessante que seja bem treinado e hoje os pet shops já enxergam isso”, ressalta a empresária. Segundo ela, todos os alunos formados no centro de estética estão empregados. “O mercado de trabalho está superaquecido. Já indiquei todos os alunos que eu tinha e tem pet shop esperando”, completa.

Produtos naturais

Os produtos naturais para animais domésticos também encontram lugar no segmento. Pensando nisso, o Grupo Humânita, fornecedor de matériaprima para indústrias químicas, com 12 anos de mercado, criou no começo de 2006 a linha FitoGuard. São produtos fitoterápicos, feitos à base de plantas medicinais, que podem ser uma opção de terapêutica menos agressiva para os animais de estimação. “Os produtos são elaborados para diminuir a resistência e as alergias causadas pelos produtos tradicionais”, assegura Rita de Cássia ; Baptista, veterinária responsável pela linha. A série traz xampus à base de aloe vera, calêndula e hamamélis, probióticos para a saúde da flora intestinal e até produtos de atuação comportamental, que agem para diminuir a ansiedade e apresentam resultados em animais agitados, seja para uma consulta ao veterinário ou na hora de tomar banho. Outra alternativa é o educador, um spray à base de citronela, que repele o animal por meio do olfato. “Para os humanos, a planta tem um cheiro agradável. Para os animais é um cheiro muito cítrico. A idéia é condicionar o animal a não freqüentar o ambiente que você não quer”, instrui Rita.

O grande número de serviços e produtos disponíveis no mercado deve ser coadjuvante da afeição que o animal recebe dos donos, mas o exagero pode ser nocivo. Para a veterinária Ana Carolina Lagoa, em termos de ; medicamentos, a variedade ajuda nos tratamentos, pois alguns remédios usados em humanos não garantem a eficácia das drogas específicas para animais. Já no quesito acessórios, Ana Carolina recomenda critério. “Algumas raças dispensam o uso de roupas que abafam a pele e tornam-se prejudiciais”, adverte. Para ela, o dono não pode perder a razão na hora de lidar com os pupilos. “Grande parte das pessoas acaba tratando o animal como se fosse um filho. É claro que temos o maior carinho por eles, mas temos de saber que eles são animais. Humanizar o animal não é legal”, aconselha.