“Nada de fotos bonitinhas”
Para a influente publicitária e caçadora de tendências Marian Salzman, o consumidor não é mais persuadido por imagens bonitinhas e frases bem colocadas. “Agora, o que faz a diferença é a entrega, não a promessa”. Confira a entrevista exclusiva
Difícil fazer uma introdução sobre a publicitária e caçadora de tendências Marian Salzman, que seja breve. Autora de diversos livros de marketing – Buzz, a era do Marketing Viral; e Siga, As tendências que regerão as vidas no futuro – entre outras, Marian é fonte recorrente da mídia e keynote requisitada pelo mundo. Ficou mais conhecida quando seu livro, em co-autoria com mais duas publicitárias, The Future of Man, sobre o comportamento do novo homem, foi divulgado nos quatro cantos, o que acabou popularizando o termo “übersexual” cunhado por elas. Marian foi pioneira em pesquisa de mercado virtual no início de 1990 e a primeira a pesquisar a chamada Geração X. Em 1995, foi considerada um dos 40 jovens talentos que mudariam o panorama do mundo dos negócios nos EUA.
Para ela, a forma das empresas e consumidores se relacionar não tem mais espaço para apelo. “Os consumidores não são mais persuadidos por imagens bonitinhas e frases bem colocadas. Vemos milhares delas todos os dias, aprendemos a nos desligar, mesmo porque a maioria destas interrupções é muito barulhenta”. O que realmente fará a diferença não é a promessa, “mas a entrega”, frisa.
Como ela mesmo define, sua missão é “juntar os pontos para ajudar as pessoas comuns a enxergarem o que se passa lá fora, e claro, ajudar meus clientes a se adaptarem a essas mudanças”. Sobre tendências e mudanças no comportamento do consumidor, troquei emails com Marian, que você confere a seguir.
Consumidor Moderno: Vivemos em um mundo no qual as marcas têm um papel importante na cultura, nas decisões de compra, no entretenimento, na internet... Na sua opinião, as marcas não estão presentes demais na nossa vida?
Marian Salzman: Acredito que as marcas estão presentes, porém cada vez menos relevantes. Os produtos reinam, nos tornamos consumidores “de qualquer marca”. Claro, as marcas importam, mas vejo uma oportunidade maior para as que têm grandes guarda-chuvas – as marcas corporativas. Estamos julgamos pelos valores, e vetores como responsabilidade social são a moeda de troca.
Agora o que faz a diferença é a entrega, não a promessa. É o produto que faz a marca, que pede ao consumidor um pouco de atenção e dinheiro. Claro, às vezes marca e produto dançam lado a lado, como no caso da Apple. Mas não esqueça que entre as décadas de 80 e 90, a Apple era uma marca boa afundando com produtos medíocres. A reviravolta veio com o lançamentos mais recentes (iMac, iTunes, iPod, iPhone) de ótimos produtos, que tornaram a marca poderosa novamente. O ponto não é que as marcas estão morrendo, é que o relacionamento entre produtos e marcas está mudando. Produtos se tornaram mais cruciais para a equação.
CM: Você popularizou o termo "übersexual”. Como acha que podemos nomear o consumidor moderno? Quais traços mais o identificam e guiam seu comportamento?
MS: São caçadores de valores. Atualmente estou mergulhada em trabalho, redigindo um documento sobre as tendências-chave para 2009. Ainda não terminei, mas posso adiantar algumas, como essa procura pelos valores reais. Valor não significa mais “quanto mais, melhor”. Nada de “tudo o que puder comer”, ou tamanhos gigantes. O valor real significa o suficiente para a satisfação.
A privacidade também redesenha suas fronteiras – mais apertadas. Num mundo de celebridades, mídia ultra-intrusiva e blogs pessoais, as pessoas discutem o que é privacidade afinal. Autenticidade e privacidade se valorizam. Falando em micro-tendências, o mundo estará com olhos mais abertos para o que acontece em Chicago, cidade de Obama. Após muitos anos na sombra, e tendo sua imagem lincada a gangsters e policiais corruptos, a cidade emerge como uma lançadora de lideranças, onde a America encontra a vibrante junção entre a grande cidade e a visão multi-étnica do mundo.
Por fim, o assunto consumo receberá tons mais austeros. A economia percebeu que não consegue arcar – efetuar o pagamento mesmo – do excesso de consumo. A crise mundial está aí para provar.
CM: O que vem depois da web 2.0?
MS: A conectividade total. Estamos num mundo no qual a digitalização é quase total, as relações – entre pessoas e empresas também – precisam ser cada vez mais transparentes.

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